sábado, 3 de dezembro de 2011

A Dangerous Method, por Sandra Moreira



Direção: David Cronenberg
Argumento: Christopher Hampton, John Kerr
Elenco: Michael Fassbender, Keira Knightley e Viggo Mortensen
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Nada sabia acerca do filme quando decidi entrar naquela sala de cinema. Keira Knightley como actriz principal pareceu-me um bom motivo. E à saída da mesma estava convicta: o motivo era suficiente. A beleza peculiar e simples (nunca tão simples…) de Keira dá vida a uma neurótica que se vai transformando ela própria, através de um método que alguém considerou perigoso, numa das mais importantes pioneiras da psicanálise. Freud e Jung são lançados para um plano secundário, ou, melhor dizendo, para um pano de fundo que nos contextualiza temporalmente numa história acerca daquilo que nos mantém literalmente vivos: a sexualidade.
Um Método Perigoso acobarda-se à medida que a cena se desenrola. Se ao início nos consegue chocar com a histeria de Sabina Spielrein (Keira Knightley), que obriga a uma quase desmandibulização” da actriz, deixa-nos com água na boca por não nos emocionar na forma como Freud mantém a sua obstinação. Após toda a especulação que surgiu acerca da procura incessante de Freud pela fama (que justificaria, em parte, tal fixação na sexualidade humana), vemos representada uma personagem que não nos chega a perturbar com devaneios, sonhos eróticos ou convenções pouco ortodoxas. Tudo nele parece provido de uma certa sensatez, de uma atitude reflexiva elaborada, quando, na verdade, Freud não foi sequer consistente consigo mesmo ao longo da sua História. Talvez Cronenberg não quisesse perder a objectividade, fazendo o filme falhar um pouco naquilo que ao cinema sempre é perdoado: a especulação, a ornamentação e o exagero.
Otto Gross (Vincent Cassel ) representa neste filme, com uma expressão corporal e facial que falam por si, o expoente máximo da prova de que todos nós somos potenciais doentes e “curadores”. Otto transforma-se tão subtilmente que nem chega a ser uma transformação. Ele incorpora o papel de “libertador” na personagem que procura uma forma de libertação para si mesmo. E é neste ondular de neurose, psicose e cura, que nos é revelada uma verdade para mim inegável: é do extremismo e do paradoxo que nasce aquilo que ainda faz tudo girar com uma perfeição dificilmente perceptível - o equilíbrio e a sensatez do universo. Um filme que, para quem vir, percebe que o seu sentido é reforçado e plenamente sintetizado exactamente no fim.
Este é um drama biográfico que nos relembra que são os impulsos mais primitivos que impulsionam a própria vida; que é dos recônditos de um id submerso que emergem os mais puros, os mais sinceros e autênticos actos humanos; que a neurose que vive em cada um de nós nos pode inspirar infinitamente para o entendimento da natureza humana… mas que é da consciência e de um superego (que parece tão dissipado no mundo que hoje nos rodeia) que nasce a capacidade de uma vida em sociedade, de uma vida em que o equilíbrio, esse equilíbrio tão frágil e evanescente, possa perpetuar-se e elevar-nos a um estado em que nós, tal como Jung, possamos morrer em paz.

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